(Cosmo Palasio de Moraes Junior)


Quase nada tenho a deixar.Pouco juntei com as mãos
Mas deixo ao vento palavras, às madrugadas deixo
 lágrimas, aos desencontros deixo à solidão.

Deixo à hipocrisia a mentira de que estive vivo
e à mentira, por sua vez, deixo a hipocrisia
 de supostamente ter acreditado.
Deixo aos amigos a certeza de que não foram
Aos inimigos o agradecimento por terem
preenchido a vida com algo real

Aos neutros deixo os muros para permaneçam sobre eles
Aos religiosos deixo a inveja de ter ido antes ver Deus
sem ter pago por isso uma só moeda.

Aos que fazem a guerra deixo a dúvida da derrota
Aos que supostamente venceram, em qualquer coisa
 que, seja um troféu de idiota
Aos importantes o conselho para que sejam úteis
e aos úteis o reconhecimento pela utilidade.

Deixo ao mar os gritos dados na praia
e à praia o destino de ser amante sempre
visitada pelo mar, apenas visitada.
Aos gurus deixo os discípulos e aos discípulos
deixo os gurus. Por se merecerem e nada mais.

Aos caminhos deixo as pegadas
Às dores deixo a neutralidade de quem não
vai mais senti-las. Ao prazer deixo um até logo
Aos incompetentes nada deixo porque nada lhes serve.

Deixo às estrelas meu olhar apaixonado
À lua todo amor que jamais tive a quem dar
Às tempestades deixo minha gratidão por terem
lavado um pouco de tanta sujeira
Às prostitutas deixo meu corpo ao qual souberam
tão bem dar prazer.

Aos políticos deixo um povo
e ao povo deixo os políticos. Não se amam mas
dormem juntos na mesma inconsciência.

Aos caciques deixo os índios e aos índios deixo os garimpeiros.E aos garimpeiros os grileiros
e para todos deixo covas onde finalmente irão
conviver em paz.
Aos soldados deixo as armas.

Enfim, deixo tudo como está,para tentar ver
se encontro alguma coisa em algum lugar.


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